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terça-feira, 27 de dezembro de 2016

ENFERMEIRO EMPREENDEDOR: uma nova competência para ampliar o mundo do trabalho

Revista Aretê Saúde Humana,  Ano 4, Vol.4, Out/Nov/Dez 2016, Série 27/12, p.19
ENFERMEIRO EMPREENDENDEDOR: 
Uma nova competência para ampliar o mundo do trabalho.

Vanessa Vieria Hornink
Arthur Bittes Jr
_________________________________________________________________________
HORNINK, V.V.; BITTES JR, A. Aretê Saúde Humana [Blog] ENFERMEIRO EMPREENDENDOR: uma nova competência para ampliar o mundo do trabalho.Faculdade de Enfermagem Oswaldo Cruz (FEOC). 2017 São Paulo, Dez 2016. Disponível em: 
<https://aretesaudehumana.blogspot.com/2016/12/enfermeiro-empreendedor-uma-nova.html>



RESUMO

O presente estudo versa sobre empreendedorismo na Enfermagem e teve como objetivos investigar os tipos negócios empreendidos por Enfermeiros e verificar condições favoráveis e/ou desfavoráveis para se estabelecer o negócio. A metodologia adotada foi, descritivo e exploratório de abordagem quantitativa. A população da pesquisa foi composta de empreendedores enfermeiros que atuam com negócios na região metropolitana de São Paulo., os dados foram coletados por meio de formulário contendo 23 questões divididas em: dados pessoais; profissionais; questões específicas sobre empreendedorismo e dificuldades ou facilidades para iniciar um negócio, encaminhado por um aplicativo eletrônico disponível no Google Drive®. Os dados foram coletados após a autorização do comitê de ética em pesquisa registrada sob o nº 1.759.83. Os dados foram tabulados utilizando-se de planilhas disponíveis no software Excell e pelo próprio serviço de tabulação de dados disponibilizado no Google Drive®. A análise de dados foi realizada por método estatístico simples, expressos em números inteiros e percentuais em relação ao (N) de pesquisa e apresentados em forma de quadros e discutidas teoricamente. Nos resultados identificou-se que os tipos de negócios empreendidos por enfermeiros são serviço e comércio, as condições favoráveis são: Capacidade de assumir riscos, ter iniciativa e assumir a responsabilidade pelos próprios atos; Capacidade prospectiva para detectar oportunidades de negócios e tendências futuras; Motivação para realizar empreendimentos novos; Autoconfiança: estar seguro das próprias ideias e decisões e Persistência. Condições desfavoráveis são: Custo alto de taxas e imposto; Falta de controles de custos e de gestão financeira; Falta de experiência empresarial anterior; Fatores externos e burocracia. Conclui-se que o ramo de atividades mais empreendidos por enfermeiros são serviços seguido de comércio de produtos. As condições que favorecem e desfavorecem o empreendedorismo são várias, porém é uma ação que garante colocação profissional, lucratividade e desenvolvimento da carreira, precisando ser ainda mais aprimorada e adotada pelo profissional de Enfermagem, começando pela Estrutura curricular da graduação.

Palavras Chaves: Enfermagem. Empreendedorismo. Empreendedorismo na Enfermagem

1. INTRODUÇÃO

1.1 ENFERMAGEM - BREVE HISTÓRICO

    Sabe-se que o mundo do trabalho anda com grandes e constantes exigências para que o profissional tenha uma boa qualificação e desempenho no ambiente profissional e para os profissionais da Enfermagem não seria diferente. A Enfermagem é conceituada como ciência do cuidar, sendo uma atividade que existe desde os primórdios da humanidade e é influenciada por circunstâncias socioculturais, características de cada lugar e momento da história.

    A institucionalização da Enfermagem como profissão foi desencadeada pelo trabalho de Florence Nightingale, considerada a precursora da Enfermagem Moderna. Nightingale revolucionou os cuidados para com o ser humano, focando sua ação na organização administrativa dos serviços de saúde e na humanização do cuidado. Sua família considerava a Enfermagem uma atividade inapropriada para uma dama, o que não a impediu de iniciar seus estudos aos 31 anos de idade, em um curso de treinamento na Alemanha. Ao longo da Guerra da Criméia (1853 a 1856), Florence Nightingale reduziu a taxa de mortalidade dos soldados britânicos de 40% para 2%, direcionando as ações de enfermeiras ainda não profissionais para o cuidado com a limpeza do ambiente e do paciente, ar fresco, boa iluminação, calor adequado, boa nutrição e repouso, visando a cura. As primeiras escolas de treinamento que foram fundadas pela mesma, eram cursos de 1 ano, e com o tempo, passaram a ser de 2 anos. Florence também deu origem às prescrições médicas por escrito e exigia que suas enfermeiras acompanhassem os médicos em suas visitas aos pacientes, para que possíveis erros fossem evitados, devido às diretivas mal compreendidas e instruções esquecidas ou ignoradas (COREN, 2015).


1.2 EXERCÍCIO DA ENFERMAGEM

    No Brasil, o exercício da Enfermagem é regulamentado e seus profissionais têm suas atribuições especificadas no Decreto nº 7.498/86, de 25 de junho de 1986, com base em conhecimentos científicos e técnicos próprios, construídos e reproduzidos por um conjunto de práticas sociais, éticas e políticas que se processa pelo ensino, pesquisa e assistência. O Profissional de Enfermagem atua na promoção, prevenção, recuperação e reabilitação da saúde, com autonomia e em concordância com os preceitos éticos e legais (COFEN, 2016).

1.3 PERFIL E TRAJETÓRIAS 

     O Perfil da Enfermagem no Brasil apresenta as características da profissão com base nos seguintes aspectos: identificação socioeconômica; formação profissional; acesso à informação técnico-científica; mercado de trabalho; satisfação no trabalho e relacionamento; e participação sociopolítica (FIOCRUZ, 2015).

    Atualmente existem 1.863.492 profissionais de Enfermagem inscritos no COFEN, dos quais 435.550 são Enfermeiros, sendo que em São Paulo existem 469.661 profissionais de Enfermagem e 112.206 são Enfermeiros (COFEN, 2016).

     Com a maior popularização do acesso ao ensino superior, houve uma expansão dos cursos que ainda estão crescendo e disponibilizando profissionais no mercado. No entanto, esse aumento não tem sido acompanhado pela qualidade dos profissionais formados, pois o grande desafio na formação do enfermeiro é transpor o que é determinado pelas Diretrizes Curriculares ao formar profissionais que superem o domínio teórico-prático exigido pelo mercado de trabalho (SILVA; SENA; TAVARES, 2012).

     O progresso da Enfermagem vem sendo expressivo, pois busca prestígio na área do saber cientifico e reconhecimento, sem deixar de lado o aspecto humanitário. O campo de trabalho aumenta cada vez mais, indo da orientação nas escolas e postos de saúde aos estudos nas diversas especificidades do cuidado (KLETEMBERG; SIQUEIRA, 2003). Sendo assim, as mudanças na formação dos profissionais da área de saúde tornam-se essenciais e devem atingir relações, estruturas e, até mesmo, o modo de funcionamento das universidades de qualidade (DIAS; GUARIENTE; BELEI, 2004).

     Portanto, as necessidades do mundo do trabalho têm influenciado a criação de escolas e a orientação da formação do enfermeiro no Brasil. Os dados sobre o número de matrículas em cursos de Graduação em Enfermagem no Brasil, indicam que o número quase dobrou em quatro anos, passando de 120.851 em 2004 a 224.330 em 2008. Mesmo assim, o mercado de trabalho em saúde ainda enfrenta problemas particulares e desequilíbrios em sua força de trabalho, que afetam de forma diferente as regiões do Brasil (SILVA; SENA; TAVARES, 2012).

     Durante a graduação, é relevante reconhecer a motivação dos estudantes que ingressam em um curso de Enfermagem, pois para que eles consigam terminar o curso, é necessário que estejam preparados para superar as dificuldades que enfrentarão neste período (SOUZA; PAIANO, 2011).








   






 
   A opinião dos egressos possibilita a visualização das transformações que ocorrem no aluno, influenciadas pelo currículo. Portanto, no seu cotidiano de trabalho, situações complexas que o levam a confrontar as competências desenvolvidas, durante o curso, como as requeridas no exercício profissional, levam o graduando a avaliar a adequação da estrutura pedagógica do curso que foi vivenciado e os aspectos que intervém do processo na formação acadêmica (COLENCI; BERTI, 2012).

   Frente a essas novas propostas, em relação ao trabalho do Enfermeiro (a) e as dificuldades e facilidades encontradas no primeiro emprego, é necessário, assim, ampliar o conhecimento acerca da inserção das novas e possíveis relações de trabalho pertinentes à este profissional.

     Portanto, sabendo de todo o contexto da história da saúde no Brasil e as exigências para a qualificação e um profissional de Enfermagem para se inserir no mundo do trabalho, o presente estudo direciona o foco ao Enfermeiro empreendedor, um novo personagem no mundo do trabalho e que possivelmente, enfrenta dificuldades para encaixar seu negócio no mercado, além de questionar quais seriam suas habilidades, competências e inovações como um empreendedor.
     
1.4 PERFIL EMPREENDEDOR

     Empreendedor é a pessoa que tem a ideia de um produto ou serviço e estabelece uma ação para que essa se torne uma oportunidade de um negócio lucrativo, assumindo os riscos legais e financeiros. Da mesma maneira, "empreendedor", em sua ascendência inglesa, entrepreneurship, indica posição, grau, relação, estado, qualidade, habilidade, enquanto que na tradução alemã, expressa quem possui ou dirige um negócio o unternehmer, que, em inglês, expressa alguém que é "proprietário-gerente" (COSTA et al. 2013).

     A cultura empreendedora deve ser estimulada desde a formação universitária em Enfermagem, auxiliando na construção de um pensamento inovador, que fica distante do fazer mecanizado, na forma de um pensamento ampliado do conceito de cuidado e saúde, onde novos campos de atuação podem ser explorados e criados, proporcionando novas maneiras de intervenção social (BACKES; ERDMANN, 2009).

     Todo empreendedor deve se dedicar ao seu negócio com tempo e envolvimento pessoal. Um negócio é tocado com inspiração, mas também com muita transpiração. Assim os aspectos que marcam uma boa personalidade para negócios são assim listador pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE 2015):

 Criatividade: aceitar desafios e buscar soluções viáveis para solucionar problemas;
 Liderança: inspirar confiança, motivar, delegar responsabilidades, formar equipe, criar um clima de moral elevado, saber compartilhar ideias, ouvir, aceitar opiniões, elogiar e criticar pessoas;
 Perseverança: manter-se firme em seus propósitos sem deixar de enxergar os limites de sua possibilidade, buscando metas viáveis até mesmo em situações adversas;
 Flexibilidade: Controlar seus impulsos para ajustar-se quando a situação demandar mudanças, estar aberto para estudar e aprender sempre;
 Vontade de trabalhar: dedicar-se plenamente e de forma entusiasmada ao seu negócio;
 Automotivação: encontrar a realização pessoal no trabalho e seus resultados;
 Formação permanente: Buscar constantemente informações sobre o mercado e atualização profissional sobre novas técnicas gerenciais;
 Organização: compreender as relações internas para ordenar o processo produtivo e administrativo de forma lógica e racional, entender as alterações ocorridas no meio ambiente externo de forma a estruturar a empresa para melhor lidar com essas mudanças;
 Senso crítico: antecipar-se aos problemas principais, analisando-os friamente (SEBRAE, 2015)

1.5 EMPREENDEDORISMO NA ENFERMAGEM

     Atualmente, a área de atuação dos profissionais de Enfermagem vai muito além do atendimento direto nos hospitais, clínicas e centros de saúde, pois esses tomaram para si muitas funções com responsabilidades relacionadas à gestão hospitalar (controle de materiais, o gerenciamento de leitos, a supervisão da higienização e dos recursos humanos). Essa atuação profissional tão ampla, que permeia todas as áreas da atenção à saúde, faz com que o enfermeiro tenha uma visão privilegiada das carências e oportunidades existentes no setor. Com isso, muitos dos profissionais, acabam abrindo seu próprio negócio e sendo empreendedores (COREN, 2015). 

  Existem três tipos de empreendedores. O corporativo (intra-empreendedor ou empreendedor interno), o start-up (que cria novos negócios/empresas) e o empreendedor social (que cria empreendimentos com missão social), são pessoas que tem um possível destaque onde quer que trabalhem (PESSOA, 2005).

   O empreendedorismo em geral, busca inovações e oportunidades de negócio, contribuindo com ações positivas para a Enfermagem, aparecendo aos poucos em um mundo de muitas direções e espaços no mercado de trabalho.

     Sabe-se que o empreendedorismo e a Enfermagem não se restringem apenas ao saber teórico, é também preciso conhecer as necessidades especificas do mercado. Assim, existe a dificuldade em encontrar profissionais com características empreendedoras, com um conhecimento cientifico e capazes de inovar.

     Ser empreendedor significa ser um realizador que produz novas ideias através da criatividade e imaginação, com motivação pela realização própria e pelo desejo de ser independente (SEBRAE, 2015).

      O Enfermeiro que vai ingressar no mundo do trabalho precisa mostrar que dispõe de senso de oportunidade, estar atento ao que acontece à sua volta, e buscar novas oportunidades, ser capaz de aproveitar situações incomuns em sua prática e que possibilitem iniciar atividades diferenciadas. Esses futuros enfermeiros dispõem de senso de oportunidade, na medida em que se mostram atentos ao que acontece à sua volta, a partir disto, conseguem identificar melhor as necessidades das pessoas e da comunidade, sendo capazes de aproveitar situações incomuns para agir proativamente. (FERREIRA et al, 2013).


     Em 1996, portanto, há 20 anos, a Associação Canadense de Enfermagem já tratava da tendência de Enfermeiros desenvolverem negócios. À época o jornal da associação já considerava uma tendência a formulação de negócios por parte de enfermeiras que ofereciam serviços diversos como educação em saúde, atendimento domiciliário particular ou por meio de seguros de saúde, além de consultoria e auditoria de serviços de saúde. Relatam ainda que estes profissionais criaram produtos como dispositivos médicos, sistemas informatizados, ou produtos de saúde para uso em domicílio (NURSING NOW, 1996). Ainda segundo a citação acima, o número de Enfermeiros no Canadá que escolhem estabelecer os seus próprios negócios vem aumentado progressivamente, impulsionado pela necessidade acelerada de empreender em razão das mudanças sociais e econômicas advindas da precarização dos serviços públicos de saúde e aumento da rede privada. Em geral, os negócios de enfermeiros versam sobre uma maior ênfase na promoção da saúde, prevenção da doença, reabilitação e apoio, pois há uma carga de consumidores maior a procura desses serviços, principalmente acarretada pelo envelhecimento populacional naquele país.


     Segundo pesquisa feita pelo Conselho Internacional de Enfermeiros (CNI), estimou-se que 0,5 e 1% de enfermeiros registrados no mundo, exercem funções empresariais em seu trabalho. Os números reais dentro dos países individuais variam muito e estão representados por enfermeiros, parteiras que são trabalhadores por conta própria, ou empresas relacionadas a própria Enfermagem. Estimam-se que a taxa de negócios empreendidos por enfermeiros ainda é muito baixa, sendo cerca de 0,1% na Nova Zelândia, 0,18% nos Estados Unidos e 18% no Reino Unido. No entanto, parece mais comum para as parteiras serem trabalhadoras por “conta própria” com estimativas de 50% na Nova Zelândia e 64% nos Países Baixos (WILSON; WHITAKER; WHITFORD, 2012).

     No Brasil, a base do empreendedorismo na Enfermagem é o atendimento domiciliar, consultorias e auditorias, mostrando avanços em relação a algumas modalidades que permitem ao enfermeiro uma atuação autônoma. Como por exemplo, os Serviço de Atendimento Domiciliar ou “Home Care” que vêm ganhando espaço no mercado, fugindo das atuações comuns do profissional de Enfermagem (GONÇALVES; PIANCÓ; ALMEIDA,2015).






 

   O empreendedorismo social surgiu como um processo alternativo dinâmico e estratégico, dotado de mecanismos mutáveis capazes de tornar sustentáveis os produtos, serviços, organizações e, principalmente, a gestão de pessoas. Assim o mesmo faz emergir propostas práticas de resolução dos problemas sociais, criando estratégias de inserção social, projetos sociais inovadores e ações empreendedoras autossustentáveis (BACKES; ERDMANN; BÜSCHER, 2010)

     O interesse pelo empreendedorismo na Enfermagem, motivado desta pesquisa e para tanto traçamos os objetivos a seguir no próximo capítulo.


2. OBJETIVO


2.1 OBJETIVO PRINCIPAL
 Investigar os tipos negócios empreendidos por Enfermeiros.

2.2 OBJETIVOS SECUNDÁRIOS
 Verificar condições favoráveis e/ou desfavoráveis para se estabelecer o negócio


3. MÉTODOLOGIA

3.1 TIPO DE ESTUDO

Descritivo e exploratório de abordagem quantitativa.

3.2 POPULAÇÃO DE ESTUDO

    Os sujeitos da pesquisa são empreendedores Enfermeiros que atuam com negócios na região metropolitana de São Paulo. A amostra atende ao critério de inclusão: Empreendedores; negócios empreendidos por enfermeiros com cadastro na Junta Comercial que é o órgão responsável pelo registro, fé pública e publicidade dos documentos arquivados pelos empresários, sociedades empresárias e sociedades cooperativas no Estado.

   Inicialmente fez-se uma pesquisa eletrônica no site oficial da JUCESP (Junta Comercial do Estado de São Paulo), no local de serviços online, foi colocada a palavra chave “Enfermagem” no campo de pesquisas para obter acesso aos dados desejados, ou seja, uma lista de empresas onde os sócios fossem enfermeiros. 

   Obteve-se 341 empresas cadastradas no Estado de São Paulo. Para selecionar as empresas as quais seriam convidadas a participar do estudo utilizou-se como critério de inclusão: estar localizadas na região metropolitana de São Paulo e apresentar no cadastro ou no site da empresa, um contato para que o formulário fosse encaminhado por e-mail. Em posse da lista de empresas, fez-se contato por meio de correio eletrônico, convidando o profissional a participar da pesquisa acessando um link que o direcionava ao questionário de pesquisa (apêndice I) e termo de consentimento livre e esclarecido TCLE (apêndice II).

3.3 ÉTICA DA PESQUISA

   O projeto da pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética da Universidade Municipal de São Caetano do Sul e aprovado conforme número 1.759.83 (Apêndice III). Seguindo os princípios da pesquisa, os dados foram coletados por meio de formulário (Apêndice I) , conduzido por um instrumento que contou com questões referentes a caracterização da amostra e abertas para atender ao objetivo do estudo. As transcrições realizadas e os TCLE (Apêndice II) serão guardados no período de 5 anos em lugar seguro e que garanta sigilo das informações. A identidade dos participantes, bem como seus endereços de contato foi mantida em sigilo e não são relevantes para os resultados do estudo. O risco mínimo está relacionado à possibilidade de constrangimento ao responder o questionário; desconforto; estresse; quebra de sigilo; dano; cansaço ao responder às perguntas; e quebra de anonimato.

3.4 COLETA DE DADOS

   Foi utilizado para esta fase um aplicativo eletrônico disponível no Google Drive® que é um serviço que permite a criação de arquivos e armazenamento online. 

   De Godoy Enz e col (2013) define que dentre suas ferramentas mais interessantes está a que permite a criação de formulários e a manipulação dos resultados provenientes dos mesmos. Esse recurso permite a inserção de diversos tipos de questão (abertas, múltipla escolha, caixas de seleção, escala, grade, data, horário, entre outras), o que possibilita uma diversidade de possibilidades de aplicação, desde formulários de inscrição, por exemplo, até questionários de levantamento com viés mais estatístico. Uma vez coletados os dados, o Google Drive® permite que os mesmos sejam salvos em uma planilha, além de oferecer a possibilidade de geração automática de gráficos com o resumo das respostas.  

   O instrumento de coleta de dados contém 23 questões divididas em: dados pessoais; profissionais; questões específicas sobre empreendedorismo e dificuldades ou facilidades para iniciar um negócio.Para a coleta de dados foi utilizada a amostra não probabilística, aplicando-se a técnica “Bola de Neve”). Segundo Baldin; Munhoz, (2011), apud Alburquerque, (2009), a vantagem dos métodos que utilizam cadeias de referência é que em redes sociais complexas, como uma população oculta, por exemplo, é mais fácil um membro da população conhecer outro membro do que os pesquisadores identificarem os mesmos, o que se constitui em fator de relevância para as pesquisas que pretendem se aproximar de situações empreendedoras como no caso desse estudo. Foram enviados 41 formulários, sendo que somente 7 retornaram, o retorno ocorreu em média de sete a dez dias. Diante de uma gama de empresas encontradas, a dificuldade foi encontrar algum tipo de contato para envio do formulário, tendo em vista que grande parte não respondeu ao convite.

3.5 ANÁLISE DOS DADOS E APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS

   Os dados foram tabulados utilizando-se de planilhas disponíveis no software Excell e pelo próprio serviço de tabulação de dados disponibilizado no Google Drive®.

   A análise de dados foi realizada por método estatístico simples, expressos em números inteiros e percentuais em relação ao (N) de pesquisa.

   Os resultados são apresentados no capítulo a seguir, em quadros seguidos de discussão teórica.

 4.0 RESULTADOS

Tabela 1: Perfil dos entrevistados. São Paulo, 2016

   Os entrevistados são na grande maioria do gênero feminino,5 (71,42%), com idades de 38 a 52 anos, tempo de formação médio de 10 anos. Gênero masculino, a idade varia entre 48 a 54 anos, com tempo de formação médio de 22,5 anos. Dentre o gênero masculino e feminino, 6 (85,71%) fizeram a graduação em instituição privada e 1 (14,28%) em instituição de ensino pública. 4(57,14%) possuem pós-graduação em nível de especialização 2(28,57%) têm de mestrado

4.1 -Ramo de atividades empreendidas

Tabela 02: Ramo de Atividade das Empresas. São Paulo, 2016.

   Os ramos de atividades mais empreendidos por Enfermeiros são 4 (57,14%) serviços, sendo âmbito Regional 2 (28,57%), Municipal e Nacional, ambos com 1 (14,28%), com quantidades que variam de 2 a 7 funcionários. Comércio tem abrangência Regional 1(14,28%) e Nacional 1 (14,28%), com a quantidades de 2 e 4 funcionários. O tipo de empresa não especificado por um dos sujeitos de pesquisa, tem abrangência Estadual com 14 funcionários

   Segundo estudo de Andrade; Ben; Sanna (2014) realizado durante o mês de janeiro de 2012 no site da Junta Comercial do Estado de São Paulo, com enfermeiros empreendedores registrados até 2011, foram encontradas 196 empresas, sendo que 70 são localizadas no município de São Paulo. Um ponto a se destacar é que grande parte das empresas estão localizadas no município de São Paulo. O estudo ainda aponta que no total, 110 empresas são registradas como atividade de enfermagem, 25 comércios varejista, ou seja, maior concentração em atividade de serviços e menor em comércio o que corrobora com os resultados obtidos na coleta de dado do presente estudo. A pesquisa citada ainda identificou 25 empresas em atividades de ensino em nível técnico, 16 empresas declararam outras atividades, sem relação com atividades de enfermagem, 7 atividades de treinamento, 5 prestações de serviços, 4 aluguéis de equipamentos, 2 comércios atacadista e 2 empresas de consultoria.

4.2 -Condições favoráveis e/ou desfavoráveis para empreender



Tabela 03: Condições favoráveis e/ou desfavoráveis para empreender. São Paulo, 2016


   Para os 7 sujeitos da pesquisa, entre os fatores considerados favoráveis para ser um empreendedor, 3 (42,85%) elegeram a “Capacidade de assumir riscos e ter iniciativa e assumir a responsabilidade pelos próprios atos”. Outros fatores variados foram apontados sendo, “Capacidade prospectiva para detectar oportunidades de negócios e tendências futuras”; “Motivação para realizar empreendimentos novos”; “Autoconfiança: estar seguro das próprias ideias e decisões” e “A Persistência”. Cada fator apresentando individualmente, ou seja, uma resposta/pesquisado o que perfaz a frequência igual a 1(14,28%) para cada fator relatado. Estes aspectos traçados como favoráveis para se empreender dizem respeito a qualidades do empreendedor. Colossi (2013), afirma que a qualidade de um bom empreendedor é a junção do conhecimento, habilidade e atitudes, contando com as mudanças atuais e tecnológicas em relação ao mundo, portanto, para um diferencial, tendem a oferecer segurança, confiabilidade e estabilidade para o cliente, favorecendo o crescimento de empresas inovadores e criativas

   Em relação às condições desfavoráveis para empreender, as respostas foram similares. 2 (28,57%) responderam que o " Custo alto de taxas e imposto”, são complicadores para a gestão de um negócio. Já outros 2 (28,57%) consideraram a “Falta de controles de custos e de gestão financeira”, isso por parte dos próprios empreendedores. 1 (14,28%) dos sujeitos da pesquisa considera que a “Falta de experiência empresarial anterior” compromete desfavoravelmente a gestão e 1 (14,28%) apontaram como desfavoráveis os “Fatores externos e burocracias” O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas, SEBRAE (2016) alerta que nos últimos anos, a importância de apoiar as micro e pequenas empresas, especialmente aquelas que tem tecnologia como base se tornou ainda maior. Como observa-se no quadro 03, as dificuldades apontadas dizem respeito a competências e habilidades de gestão que os empreendedores devem ter, assim, são possíveis de serem adquiridas, entretanto requer aprendizado. Neste contexto o SEBRAE apresenta-se como apoiador do empreendedor no sentido de promover formação e capacitação no âmbito da gestão de negócios.

   Segundo Chiavenato (2012), é necessário aprender a aprender e pensar no capital humano e intelectual, os investimentos em aprendizagens devem ser feitos cuidadosamente e contínuo, pois ele que vai construindo sua experiência e o conhecimento necessário para garantir o desenvolvimento e o progresso de seu negócio.

 4.3 Dificuldades e/ou Facilidades para empreender



Tabela 04: Dificuldades e/ou facilidades para empreender. São Paulo, 2016.


   De acordo com o quadro acima, as dificuldades enfrentadas para uma pessoa que quer abrir uma empresa vão desde registros de aprovação do órgão responsável, burocracia relacionada à implantação e regularização da empresa e cobranças de taxas, até o negativismo da família, aceitação e entendimento do próprio negócio, divulgação e marketing do negócio, além das complicações referentes ao e lidar com o ser humano, o que pode ser entendido como as relações interpessoais que englobam sócios, clientes e empregados. Para iniciar-se uma empresa, é necessário preencher as quatro bases fundamentais antes de ser dada a largada, são elas, Equipe, Tipos de Produção, Finanças e o item que apareceu como uma das dificuldades para abrir o negócio, o Marketing.














   Para registrar uma empresa no Órgão responsável pela fiscalização profissional, que é o COREN, é necessário pagar uma taxa de R$337,60 sendo, R$299,00 para o registro e 38,65 para emissão do Certificado de Registro da Empresa. O valor da anuidade jurídica será de acordo com o valor do Capital Social. Mas, as cobranças não acabam por aí, Existe também impostos s cobrados conforme o ICMS no Estado ou ISS e IPTU no Município, fora os impostos da união, que podem representar um peso ainda mais significativos nas operações realizadas pela empresa, afetando a lucratividade e as perspectivas de crescimento. Como já citado, as cobranças dos impostos federais, estaduais e municípios afetam a lucratividade e as perspectivas de crescimento. Entretanto sobre o índice de cidades empreendedoras no Brasil, segundo Endeavor (2016), São Paulo tem mais de 11 milhões de habitantes e ficou em primeiro lugar entre as cidades mais Empreendedoras de 2016, com resultados consistentes em diferentes pilares, com custo relativo mais baixo em relação a outras capitais, assim sendo extremamente atraente para se iniciar uma empresa. Crises têm muitas consequências negativas para os empreendedores e para a população como um todo, mas sempre há o lado cheio do copo.


4.4 Estímulos para abrir uma empresa 

Tabela 05: Estímulos para abrir uma empresa. São Paulo, 2016.


   Para entender melhor o sucesso de um empreendedor, procuramos saber mais sobre quais eram esses estímulos para a abertura de uma empresa, assim de acordo com as respostas acima, percebe-se que os tais surgem a partir de transformar ideias em realidade para benefício próprio e para o benefício da sociedade e comunidade.   O estímulo é aquele que direciona o empreendedor com intensidade, persistência e esforço para alcançar determinada meta. Dentre esses fatores, existem os desejos pessoais que envolvem o ganho de dinheiro, a mudança de vida ou reconhecimento profissional; Fatores ambientais que analisam e identificam oportunidades de negócio inovadores de acordo com a necessidade social da comunidade; Fatores sociológicos que possibilitam ter um grupo de pessoas com características semelhantes empreendedoras ou influências da própria família (BAGGIO, 2014).

  4.5 Empreendedorismo na graduação 


Tabela 06: Influências da graduação para tornar-se empreendedor. São Paulo, 2016. 

   Em relação ao Ensino do Empreendedorismo na Graduação de Enfermagem ao responder sobre a existência de algum tipo de influência curricular durante a formação, 5(71,42%) referem que sim e que foram durante aulas de administração e empreendedorismo junto com a realização do primeiro negócio e com convivência com outros empreendedores.  2(28,57%) respondem que não existiu nenhum tipo de influência curricular para o empreendedorismo, mas quando questionados sobre como a Unidade Curricular da graduação poderia ter ajudado ou influenciado na decisão de empreender, as respostas foram diversas como as apresentadas no quadro acima, o que sugere que mesmo negando, houve alguma influência na graduação para o empreendedorismo.

    No estudo apresentado por   Sales; Cruvinel; Silva; Santos, (2008), (2%) dos alunos do 1º e 2º período, (85%) do 7º período e (94%) do 8º período cursaram a disciplina Empreendedorismo na Enfermagem, sendo que (98%) dos alunos do 1º e 2º período, (15%) do 7º período e (4%) do 8º período não tiveram em sua grade curricular a disciplina Empreendedorismo.
Couto Filho, (2014), apurou em sua pesquisa que 92,86% dos estudantes de Enfermagem, participantes da pesquisa, nunca fizeram curso de capacitação na área do empreendedorismo ou da educação empreendedora. Já 7,14 % dos participantes informaram que fizeram cursos de capacitação e todos esses apresentaram um nível alto ou muito alto de tendência empreendedora segundo o teste aplicado na pesquisa.

   Backes et al, (2012) afirmam que o docente precisa investir nas metodologias ativas e empreendedoras durante o processo de formação profissional.  Entendem que com uma postura sensível, atenta, acolhedora e ética, apresentando-se como pessoa de referência tanto nos saberes técnico-científicos quanto nos saberes relacionados à solidariedade, indicando que um profissional empreendedor procura, em condições menos favoráveis, fazer mudanças e provocar transformações.

   As funções inovadoras e de promoção de mudanças do empreendedor, servem para promover o desenvolvimento e crescimentos econômicos. Mas a cada ano, mais profissionais são lançados no mercado de trabalho, o problema de maior envergadura das Instituições de Ensino Superior está no grande percentual de bacharéis que elas formam e lançam no mercado, que se mostram em desarmonia com a realidade dos dias atuais nos quais sobressaem altos índices de desemprego (COUTO FILHO, 2014). Como citado na introdução do presente estudo os dados sobre o número de matrículas em cursos de Graduação em Enfermagem no Brasil indicam que o número quase dobrou em quatro anos, passando de 120.851 em 2004 a 224.330 em 2008. Mesmo assim, o mercado de trabalho em saúde ainda enfrenta problemas particulares e desequilíbrios em sua força de trabalho que afetam de forma diferente as regiões do Brasil

   De acordo com SMESP, (2015), o Estado de São Paulo concentra mais de 1,6 milhão de alunos matriculados (26,8% do total) em cursos presenciais em redes privada e pública em todas as áreas do conhecimento. A Enfermagem em São Paulo, na rede privada, está em 6° lugar entre os cursos mais procurados com o número total de matriculas de 193.420 anuais, o número de ingressantes é 69.895 e de concluintes é 27.144 (14%). Por estes dados, identificasse que 42.751 alunos não se formaram por algum motivo, mas em relação aos que concluíram a Graduação, a quantidade de vagas que está sendo disponibilizadas em São Paulo, ainda não chega nem a 1% da formação segundo o número de vagas de emprego oferecidos no ano de 2016, que fora pesquisado em três sites resultando e, 160 vaga (SINE), 397 (CATHO) e 169 (Info Jobs). Estes sites atuam com classificados online de vagas de emprego e cadastros de currículo, assim os recém formados que ingressão no mercado de trabalho são aqueles que tiveram uma formação mais qualificada e conseguem também passar de concurso público. Quanto à formação e inserção no cenário de atuação, o profissional tem demonstrado uma fragilidade no que se refere ao reconhecimento da contribuição da formação de sujeitos críticos-reflexivos e a inserção no mundo do  trabalho.

   De acordo com  Couto Filho (2014) uma instituição de ensino empreendedora é aquela que além de incluir em seu projeto pedagógico disciplinas ou cursos de empreendedorismo, adota um novo modelo educacional, tornando-se uma instituição empreendedora e por conseguinte tornando o ensino do empreendedorismo mais eficiente usando de sua própria metodologia, assim fundamentada no “aprender fazendo”, que utilize técnicas como oficinas, estudos de caso, dinâmicas diferenciadas ensinando ao aluno adulto a importância na prática sobre o assunto a ser estudado.

4.6 Enfermagem empreendedora para o futuro


Tabela 07: Expectativas para empresa nos próximos 5 anos. São Paulo, 2016

   Para ter solidez, aumentar lucros, atingir expansibilidade empresarial, as empresas utilizam recursos para atingir objetivos, sendo ele, o próprio lucro ou a prestação de algum serviço público, independente do lucro. Mas, os lucros insuficientes, juros elevados, perda de mercado, mercado consumidor restrito e nenhuma viabilidade futura, são as causas mais comuns de insucesso nos negócios (CHIAVENATO, 2012).  Para ter um bom lucro, uma empresa precisa passar por algumas etapas constantes, são essas: Perspectivas de inovação e aprendizado que assegura o treinamento e capacitação para forças de trabalho; Perspectivas dos processos internos, para melhoria de seus próprios processos e implantação de novas tecnologias; Perspectivas do cliente, que melhora e implanta novos sistemas de atendimento; Perspectiva financeira, para aumentar cada vez mais o desempenho financeiro. 




                                                           













   De acordo com Chiavenato (2102), Economia nacional e global em crescimento, ambiente político e econômico satisfatório, aumento da renda per capita da população, desenvolvimento econômico social, nova tecnologia revolucionária a ser usada, aumento das oportunidades de exportação, facilidades governamentais para novos negócios, redução de impostos, oferta de créditos e financiamentos oficiais, incentivo do governo à pequena e média empresa, aumento do poder aquisitivo da população e necessidade de produtos/serviços pelos mercado, estão descritos como oportunidades ambientais no SWOT, que é uma ferramenta utilizada para verificar forças e fraquezas empresariais. O que possibilita grandes perspectivas para o futuro de uma empresa





Figura 08: Expectativas futuras em relação a Enfermagem e ao Enfermeiro. São Paulo, 2016.


   Hospital ou Home-spital? Contextualização de um tipo de Hospitalização em casa? Este é um neologismo citado por Melanie Walker, médica e  co-presidente do Neurotechnology & Brain Science Future Council e Clinical Associate Professora de Neurologia e Cirurgia Neurológica da Universidade de Washington, professora adjunta no Johns Hopkins School of Medicine. Segundo a Dra. Walker, as perspctivas para 2030 são de que com a tecnologia irão existir menos necessidades hospitalares, as doenças cardiovasculares vão diminuir dado ao grande investimento na prevenção e a avançada e eficaz tecnologia de tratamento medicamentoso ou processual que irão tratar as obstruções vasculares como o AVC (Acidente Vascular Cerebal) e o IAM (Infarto Agudo do Miocárdio). Os traumas causados por acidentes principalmente automobilísticos também devem ser reduzidos em função dos carros autodirigidos, assim as demandas de saúde serão aquelas referentes às doenca crônica, e esses paciente não precisam tanto de um hopital especializado. Sob esta perspectiva, os hospitais tornam-se locais para “Pitstop”, ou seja, realização de procedimentos rápidos e simples. Alguns hospitais especializados irão desaparecer, pois os scanners vão ser tão maravilhosos no sentido de realização de diagnósticos que a biopsia não vai ser necessária. As doações de orgão vão ser obsoletas, por conta do avanço de tecnologia das impressoras 3D. Esta perspectiva para o futuro abre uma gama de possibilidades para aqueles que são criativos, inovadores e tecnológicos e um grande espaço empreendedor.

   De acordo com Ferreira et al (2013), os futuros enfermeiros precisam, além de uma formação com qualidade, estar atentos com o que acontece à sua volta, buscar novas oportunidades e ser capaz de aproveitar situações incomuns em sua prática e que possibilitem iniciar atividades diferenciadas. Além do desejo de buscar oportunidades não exploradas, e que denotam uma postura empreendedora ao agir com iniciativa e proatividade diante de situações com persistência na execução.

   Era do empreendedorismo?

   São empreendedores que estão eliminando barreiras comerciais e culturais, encurtando distâncias, globalizando e renovando os conceitos econômicos, criando novas relações de trabalho e novos empregos, quebrando paradigmas e gerando riquezas para sociedade, propiciando um número cada vez maior de empreendimentos com base no incentivo de capacitações em escolas e universidades que está sendo prioridade em muitos países, inclusive no Brasil (DORNELAS, 2005).

   Percebe-se que as constantes mudanças do mundo do trabalho refletem não só no desenvolvimento da profissão do enfermeiro, como também em sua formação, assim visualizando o futuro como a oportunidade de identificar características para prever o instinto de empreender, para além dos limites institucionalizados e de características próprias do trabalho compreendendo a problemática local e com a necessidade de inserir-se ativamente em política públicas voltadas para as demandas sociais.

4.7 O que é inovação

   Entende-se que criatividade e inovação andem juntas, é tirar do nada, transformar, educar, gerar, inventar, produzir, cultivar, instituir e fundar, assim elas podem partir de todas as possibilidades existentes no que diz inovar, através de percepções e observações de diferentes necessidades do ser humano. Este conceito de criatividade corrobora as respostas obtidas na pesquisa:
 “Ter a capacidade transformar algo que já existe em uma nova oportunidade, novas propostas. Um novo olhar”.
“Inovar significa para mim enfermeira empreendedora fazer algo diferente do normal, do que já existe, pensando em um bem maior para o cuidar do ser humano”.
“Atualizar-se periodicamente e ofertar novidades ao meu cliente final em primeira mão”.
“Inovação é tudo aquilo que favorece perante a sociedade, e que não existe”.
“Tudo aquilo que existe mas que pode ser moldado para algo melhor”
“Ter a criatividade necessária, para a mudança”.
 “Fazer a diferença com algo novo”.

   O diferencial do profissional não está apenas em suas habilidades, currículo, formação ou experiência e sim no modo como se comporta, percebe o mundo, visualiza as oportunidades, relaciona-se e é capaz de inovar e o empreendedor não é diferente, é a pessoa que tem a ideia de um produto ou serviço e estabelece uma ação para que essa se torne uma oportunidade de negócio lucrativo, assumindo os riscos legais e financeiros. Assim, pode-se observar que o papel do Enfermeiro é, dentro do seu trabalho, procurar modificações constantes, pensar diferente do cotidiano, para simplificar métodos e procedimentos, melhorar sistemas, agilizar fluxos, reduzir burocracia, papelada, custos, controles mais eficientes,

   Ao se deparar com variadas opções de trabalho e especialidades tradicionais da área de saúde e do enfermeiro, o recém-formado, muitas vezes, encontra no mundo do trabalho a não aceitação daquele que acabou de se formar e para os recursos humanos das empresas a falta de experiência profissional prévia é limitação a ser desafiada. Mas, a qualidade profissional do recém-formado, é o reflexo de tudo que ele vivenciou e aprendeu durante sua graduação. Pode até ser que o espírito empreendedor já venha no pacote de objetivos pessoais do estudante promovido por experiências vividas fora da graduação, entretanto, os fundamentos para dar um “UP” em sua carreira e realmente ter pensamentos críticos, enxergando a inovação e tendo um nível de criatividade de acordo com a necessidades das pessoas/comunidade passam, necessariamente, pela estrutura e proposta curricular experimentadas durante a graduação.


5.0  CONSIDERAÇÕES FINAIS 

   Conclui-se que o ramo de atividades mais empreendidas por enfermeiros são serviços seguido de comércio de produtos. As condições que favorecem são: Capacidade de assumir riscos; ter iniciativa e assumir a responsabilidade pelos próprios atos; Outros fatores variados foram apontados sendo; Capacidade prospectiva para detectar oportunidades de negócios e tendências futuras; Motivação para realizar empreendimentos novos; Autoconfiança: estar seguro das próprias ideias e decisões e Persistência”. E as desfavoráveis são: Custo alto de taxas e imposto; Falta de controles de custos e de gestão financeira; Falta de experiência empresarial anterior; Fatores externos e burocracia.

   As dificuldades enfrentadas para uma pessoa que quer abrir uma empresa, a pesquisa demonstra que estas vão desde registros de aprovação do órgão responsável, burocracia relacionada à implantação e regularização da empresa e cobranças de taxas, até o negativismo da família, aceitação e entendimento do próprio negócio, divulgação e marketing, além das complicações referentes as relações interpessoais com sócios, clientes e empregados.  As facilidades foram referidas em menor frequência,  são elas: Ganhos de experiência e monetário, local definido para loja virtual; Disponibilidade para fazer algo que entende que é uma necessidade e uma vontade de ajudar as pessoas e Ajuda dos amigos.

   Para o sucesso de um empreendedor, os estímulos que existem desde a ideia até o processo para abrir uma empresa são: Oportunidades e inovação; Horário flexível; Ter um próprio negócio; Precariedade na Enfermagem; Individualidade, projeção, Reconhecimento e a própria atitude de gostar de cuidar do próximo. Mas como todo bom empreendedor, as expectativas devem ser bem objetivas e “rodam” em torno de aumentar os lucros e a expansão do negócio, percebe-se que os tais surgem a partir de transformar ideias em realidade para benefício próprio e para o benefício da sociedade e comunidade.

   Em relação às expectativas para o futuro da profissão, os entrevistados, vislumbram o reconhecimento da profissão e do profissional, a construção de novo perfil de profissional durante a graduação, existência de mais empreendedores à medida em que as vagas de emprego tradicional vão diminuindo, dificultando a inserção profissionalmente no mundo do trabalho.

   Apesar das condições desfavoráveis e dificuldades serem várias, o empreendedorismo é uma ação que garante colocação profissional, lucratividade e desenvolvimento da carreira, precisando ser ainda mais aprimorada e adotada pelo profissional de Enfermagem, o que entendemos que deva ser iniciado pela Estrutura curricular da graduação.

   Grande parte dos entrevistados referem que existiram grandes influências para que se tornassem empreendedores advindas das aulas de administração e empreendedorismo junto com a realização do primeiro negócio e com convivência com outros empreendedores, portanto entendem-se que a graduação se torna sim uma base fundamental para que o egresso torne-se um empreendedor.

   Florence Nightingale foi uma das maiores empreendedoras e a percursora da Enfermagem moderna, atuou inovando cuidados, gestão de serviços e formação profissional embasada nas ciências, logo estabelecendo um “DNA” na Enfermagem de profissão empreendedora. Entretanto, apesar de ter avançado muito em conhecimento e tecnologia, a Enfermagem ainda precisa de muitos empreendedores extra organizacionais, interferindo na economia, criando vagas de emprego e diversificando a oferta de produtos e serviços. Porém, nos parece que o enfermeiro ainda está preocupado em ser aquele enfermeiro “Padrão”, que quando se forma quer ir para os empregos formais tradicionais, deixando muitas vezes de lado a atitude empreendedora orientada para necessidades do mercado ou da sociedade. Claro que mesmo sendo um enfermeiro em relação de trabalho tradicional, não deixa de ser um empreendedor no âmbito intra organizacional, inovando, criando e implementando novos processos, mas pode-se dizer que este profissional ainda está tímido quando se trata de empreender negócios e constituir empresas.

   Entendemos por fim, que exista a necessidade da oferta de cursos específicos para enfermeiros e direcionados à formação e capacitação gestora de empresas, relacionamentos interpessoais, liderança, gestão financeira e uma atitude empreendedora. Por outro lado, deverá existir, por parte do profissional, a iniciativa de mudança, enxergando novas necessidades das pessoas e do mundo e as mudanças das relações de trabalho, de modo que ele exerça a pro atividade em relação a sua carreira, abrindo as portas para essa nova realidade do mundo do trabalho.


REFERÊNCIAS

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BACKES, D. S., ERDMANN, A. L., BÜSCHER, A. O cuidado de enfermagem como prática empreendedora: oportunidades e possibilidades. Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Acta Paul Enferm,  v.23, n.3, p. 341-7, 2010.  

BAGGIO, A. F., BAGGIO D. K.. Empreendedorismo: Conceitos e Definições, Revista de Empreendedorismo, Inovação e Tecnologia, vol.1 n.1 pag. 25-38, 2014. 

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COFEN– Enfermagem em números. Disponível em: < http://www.cofen.gov.br/ENFERMAGEMEM-NUMEROS>. Acesso em Abril de 2016.   

COREN São Paulo. As práticas de saúde ao longo da historia e o desenvolvimento das práticas de enfermagem. Disponível em: <http://portal.coren-sp.gov.br/node/34635>. Acesso em jun. 2015   

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quinta-feira, 12 de maio de 2016

ESTUDO DA CONTAMINAÇÃO MICROBIOLÓGICA DOS BRINQUEDOS UTILIZADOS NO ENSINO DO BRINQUEDO TERAPÊUTICO NO HOSPITAL

Revista Aretê Saúde Humana,  Ano 4, Vol.4,Publicações 2016,Abril/Maio/Junho 2016, Série 12/05, p.17

ESTUDO DA CONTAMINAÇÃO MICROBIOLÓGICA DOS BRINQUEDOS UTILIZADOS NO ENSINO DO BRINQUEDO TERAPÊUTICO NO HOSPITAL
Estela mara Nicolau1
Ana Llonch Sabatés 2

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NICOLAU, E.M.; SABATÉS. A.L. Aretê Saúde Humana [Blog].  Estudo da Contaminação Microbiológica dos Brinquedos Utilizados No Ensino Do Brinquedo Terapêutico No Hospital..- Faculdade de Enfermagem Oswaldo Cruz (FEOC) São Paulo, Maio. 2016. Disponível em: <http://aretesaudehumana.blogspot.com/2016/05/estudo-da-contaminacao-microbiologica.html>


1 – Mestre em Enfermagem, UNG, Especialista em Neonatologia e novas tecnologias de ensino-


aprendizagem, Docente das Faculdades Oswaldo Cruz e do Centro Universitário Ítalobrasileiro. 


emnicolau@gmail.com



2 – Drª em Enfermagem , UNIFESP, Profª titular da Universidade de Guarulhos, Lider do Grupo de 


pesquisa Gebrinq/ Unifesp. sabates@terra.com.br





1.Introdução

A hospitalização é permeada de experiências estressantes para a criança e família, neste sentido, é de fundamental importância o atendimento das necessidades emocionais e sociais da criança, por meio de técnicas de comunicação adequadas, entre as quais se destaca o brinquedo terapêutico (BT)1

 O BT pode constituir uma fonte potencial de contaminação hospitalar em semelhança com os fômites; no entanto, ainda não há evidencias da relação causal entre os brinquedos e a infecção hospitalar2.

 Neste sentido, conhecer a ocorrência ou não da transmissibilidade de microrganismos patogênicos por meio dos brinquedos é um cuidado de enfermagem que visa à segurança da criança hospitalizada3.



2. Método

 Trata-se de um estudo descritivo, de laboratório com abordagem quantitativa, que teve como objetivo identificar os microrganismos presentes nos brinquedos utilizados no ensino do Brinquedo Terapêutico no hospital. A população foi constituída por 117 brinquedos acondicionados em três caixas (A, B, C) contendo 39 brinquedos cada. Dos 39 brinquedos, 29 eram de plástico e 10 de pano. Foram avaliados 90 brinquedos que compuseram a amostra final, 63 de plástico e 27 de pano. O procedimento de coleta foi realizado com a utilização de swab, o qual foi introduzido em meios de cultura com caldo BHI. Os isolados bacterianos foram identificados mediante a semeadura das culturas positivas em meio Ágar Manitol (Staphylococcus aureus e Staphylococcus coagulase-negative), Ágar MacConkey (Escherichia coli ) e Ágar Cetrimida (Pseudômonas aeruginosas).

 3.Resultados


 O teste de qui-quadrado foi utilizado para comparar a incidências de contaminação microbiana entre os brinquedos de plástico e os de pano. Em todas as análises foi considerado o nível de significância estatística de 5% (p ≤ 0,05).











4. Conclusão

 Os brinquedos utilizados na sessão do brinquedo terapêutico foram contaminados pelas bactérias Staphylococcus aureus e Staphylococcus coagulase negative e por fungos não especificados.

 A pesquisadora reconhece a necessidade de outros estudos para aprofundar e ampliar o conhecimento sobre a contaminação dos brinquedos utilizados no Brinquedo terapêutico muito importante para o cuidado de enfermagem à criança hospitalizada e de medidas eficazes para sua descontaminação.





5. Referências

1 - Ribeiro CA, Borba RIH, Rezende MA. O brinquedo na Assistência à Saúde da Criança. 1ª ed. São Paulo: Manole; 2008. P.65-73.

2- Almeida MC, Corrêa I. Descrição Bacteriológica de brinquedo utilizado em unidade de internação pediátrica [Dissertação Mestrado]. Botucatu Faculdade de Medicina de Botucatu Universidade Estadual Paulista. 2010.

3 - Cardoso MFS, Côrrea L, Medeiros ACT. A Higienização dos brinquedos no ambiente hospitalar. Rev. Prática Hosp. Ano VII n. 42, dez. 2005.







terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

VITIMIZAÇÃO INFANTIL: AS DESVENTURAS DO ENFERMEIRO NO PROCESSO DE NOTIFICAÇÃO

Revista Aretê Saúde Humana,  Ano 4, Vol.4, Publicações 2016, Jan/Fev/Mar,Série 16/02, p.16
VITIMIZAÇÃO INFANTIL: AS DESVENTURAS DO ENFERMEIRO NO PROCESSO DE NOTIFICAÇÃO.

CARLA MÜLLER BATISTELI BARROS
ARTHUR BITTES JR


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BARROS,C.M.B; BITTES JR, A. Aretê Saúde Humana [Blog]. Vitimização Infantil: As Desventuras do Enfermeiro no Processo de Notificação.- Faculdade de Enfermagem Oswaldo Cruz (FEOC) São Paulo, Fev. 2016. Disponível em: <http://aretesaudehumana.blogspot.com/2016/02/vitimizacao-infantil-as-desventuras-do.html>




RESUMO
A violência contra crianças e adolescentes é um problema histórico de saúde pública que além de violar seus direitos básicos necessários ao seu desenvolvimento, irá repercutir ao longo da vida, levando a consequências negativas na sua qualidade de vida. Notificar aos órgãos responsáveis os casos de violência contra crianças e adolescentes tem por finalidade proteger a criança e sua família. Ao mesmo tempo, esse registro servirá para que os serviços de saúde entendam melhor a sua clientela e adequem os serviços de atenção a essas vítimas no sistema de saúde. O objetivo geral do trabalho é conhecer quais os sentimentos gerados no Enfermeiro no processo de notificação da violência em crianças e adolescentes e o objetivo específico é conhecer a trajetória da notificação da violência. Trata-se de uma pesquisa qualitativa que utilizou o método de Minayo em Ciências Sociais. Foram realizadas cinco entrevistas com enfermeiras que atuam nas portas de entrada do Sistema Único de Saúde do município de São Bernardo do Campo-SP. Para elucidar as discussões finais foi utilizada a estratégia do mapa conceitual com a demarcação da trajetória da notificação e os sentimentos gerados neste processo. Percebe-se nas considerações finais que a trajetória do processo de notificação leva o profissional de Enfermagem a se confrontar e lidar com seus próprios sentimentos e emoções, que trazem à tona conflitos éticos e morais.
Palavras-chave: Violência infanto-juvenil. Enfermagem – Aspecto social. Enfermeiro – Notificação de violência.

1. INTRODUÇÃO

     Minha vontade de estudar esse tema surgiu por sempre ter tido afinidade e gostar dos temas relacionados à pediatria. Filha de professores, cresci escutando meus pais relatarem casos que os deixavam espantados de violência contra crianças e adolescentes. Algumas histórias me marcaram e isso despertou minha curiosidade em saber como os profissionais da profissão que eu escolhi seguir carreira, lidavam com essas situações.

1.1 A VIOLÊNCIA INFANTIL

     A violência em crianças e adolescentes, além de violar os direitos básicos, necessários ao seu desenvolvimento, atualmente, é considerada a principal causa da morte a partir dos cinco anos de idade. O número de vítimas desse tipo de violência, tanto atendido em rede pública quanto na privada, é crescente (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2001).


     Todos os tipos de violências e os acidentes juntos constituem a segunda causa de óbitos no quadro da mortalidade geral brasileira. A gravidade desse problema atinge toda a infância e adolescência, pois nas idades de 1 a 9 anos, 25% das mortes são devidas a essas causas. E de 5 a 19 anos é a primeira causa de morte. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002b).

     Weber et al., (2002) explica que maus-tratos contra a criança existem desde a Antiguidade, em diversas classes sociais e diferentes culturas, pois até o século XVII, as crianças não eram consideradas como seres com particularidades próprias e que não existiam leis específicas para as crianças até o século XIX. Apenas na metade do século XIX que surge a compreensão dos maus-tratos contra esse grupo.

     De acordo com Moreira et al., (2013) é um problema histórico de saúde pública que irá repercutir ao longo da vida dessas crianças, levando a consequências negativas na sua qualidade de vida.

     Esse grupo, que engloba a faixa etária de zero a 24 anos de idade, tem sido vitima de diferentes tipos de acidentes e violência. Na maioria das vezes, os adolescentes sofrem essa violência fora de casa, enquanto as crianças sofrem dentro do próprio lar (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002a).

     As experiências na infância e adolescência podem ser positivas ou desfavoráveis e irá refletir na sua personalidade adulta. Uma criança que sofreu algum tipo de violência terá comportamentos distorcidos que perpetuará por gerações seguidas. Por isso, profissionais de saúde e todos os cidadãos devem contribuir para uma cultura de paz (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002b).

1.2 TIPOS DE VIOLÊNCIA

    Em 2002, o Ministério da Saúde estabeleceu uma classificação que distingue os tipos de violências em domesticas e extradomiciliares sendo estas: “Violências domésticas (maus-tratos físicos, abuso sexual e psicológico, negligência e abandono) e violências extradomiciliares (exploração do trabalho infanto-juvenil e exploração sexuais, além de outras originadas na escola, na comunidade, nos conflitos com a polícia, especialmente caracterizados pelas agressões físicas e homicídios), bem como as violências auto infligidas (como a tentativa de suicídio)” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002a p. 19).

     Bannwart (2011) em uma revisão sobre o tema define negligência e abandono como omissões dos pais ou do responsável (inclusive institucional) onde deixam de prover, ou não prover, as necessidades básicas para o desenvolvimento físico, emocional e social; o abandono é a forma de extrema negligência. Os abusos físicos são atos violentos com uso da força física de forma intencional e não acidental ou por atos de omissão praticados por pais, responsáveis, familiares ou pessoas próximas, com objetivos de ferir, lesar ou destruir, que podem deixar ou não marcas corporais evidentes. O abuso sexual é todo ato ou jogo social, hetero ou homossexual, cujo agressor tem um estágio de desenvolvimento psicossexual mais adiantado e tem como base uma relação de poder. O abuso psicológico é muito comum nos lares e um dos mais difíceis de ser identificado por não possuir evidências imediatas de maus-tratos, é composto por toda forma de rejeição, depreciação, discriminação, desrespeito, chantagem, ameaças, intimidações, exposições ao ridículo, punições humilhantes, cobranças exageradas.
     
     A definição de violência contra criança e adolescente irá variar com a visão cultural e social e historicamente esse conceito vem sendo ampliado (SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA, 2001).
A Organização Mundial de Saúde (OMS, 2002) adotou a definição violência utilizada pela International Society for Prevention of Child Abuse and Neglect (ISPCAN) como: “O abuso ou os maus tratos contra crianças engloba toda forma de maus-tratos físicos e/ou emocionais, abuso sexual, abandono ou trato negligente, exploração comercial ou outro tipo, da qual resulte um dano real ou potencial para a saúde, sobrevivência, desenvolvimento ou dignidade da criança, no contexto de uma relação de responsabilidade, confiança ou poder” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE, 2002, p.59).

     Segundo a UNICEF (2012), esse grupo tem sido muito afetado por violência. As estatísticas demonstram que há muitos casos de violência, apesar dos esforços realizados pelo governo brasileiro e a sociedade, para acabar com esse problema. São denunciados por dia, cerca de 129 casos de violência contra crianças e adolescentes, que podem ser psicológica, física, sexual ou negligência, sem levar em conta as agressões e violências que nunca chegam a ser denunciadas (UNICEF, 2012). A violência intrafamiliar e a exploração sexual são as formas mais severas de violência encontradas contra crianças e adolescentes (DESLANDES, et al., 2011).
  
     A violência doméstica é muito frequente, estima-se que apenas 20% dos casos sejam denunciados. A notificação dos casos a órgãos competentes é uma prática pouco exercida pela comunidade e o pacto do silêncio traz danos à criança e sua família. (WEBER, et al., 2002)

1.3 A NOTIFICAÇÃO

  Com a aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), no Brasil (Lei 8.069 de 13 de julho 1990), toda sociedade passou a ser responsável pela proteção e garantia dos direitos das crianças e adolescentes, incluindo formulação de políticas públicas e destinação de verbas para a proteção integral desse grupo, instituído, como sujeitos de direitos (BEZERRA, 2006).

   A implementação do ECA, assegurou os direitos e a proteção integral e tornou compulsória a notificação de casos suspeitos e confirmados por parte dos profissionais de saúde (BANNWART, 2011). No artigo 245 do ECA, ficam obrigados a denunciar suspeitas ou confirmação de maus tratos contra crianças e adolescentes, sob pena de multa, o médico, professor ou responsáveis por estabelecimento de atenção à saúde e de educação, comunicando ao Conselho Tutelar. Os mesmos serão punidos por lei, caso não o façam (SÃO PAULO, 2007).  

   No entanto, de acordo com o Art. 34 do Código de Ética da Enfermagem, todo profissional está proibido de provocar, cooperar, ser conivente ou omisso em qualquer forma de violência (Conselho Regional de Enfermagem, 2014). Nesse sentido, a não notificação da suspeita de um caso de violência pode ser considerado como conivência do profissional ao ato.

   Combater a violência contra crianças e adolescentes é uma ação necessária nos dias atuais e que não pode ser adiada, pois é uma questão que influencia a saúde e o desenvolvimento da criança (PORDEUS, et al., 2011).

   No Brasil, foi a partir dos anos 80, com o reconhecimento da ocorrência de maus tratos, que surgiu à necessidade de proteger essa criança ou adolescente através da notificação da violência à autoridade competente (GONÇALVES; FERREIRA, 2002).

   A notificação de maus-tratos contra criança e o adolescente pode ser definida como:“uma informação emitida pelo setor saúde ou por qualquer outro órgão ou pessoa, para o Conselho Tutelar, com a finalidade de promover cuidados sociossanitários voltados para a proteção da criança e do adolescente, vítimas de maus-tratos” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002b p.14).

     Segundo Bannwart e Brino (2011), a diferença entre notificação e denúncia é que a última é o registro da ocorrência na delegacia. Notificar aos órgãos responsáveis os casos de violência contra crianças e adolescentes tem por finalidade proteger a criança e sua família. Ao mesmo tempo, esse registro servirá para que os serviços de saúde entendam melhor a sua clientela e adequem os serviços de atenção a essas vítimas no sistema de saúde (LUNA et al., 2010).

   Em uma revisão sobre o tema Noguchi et al. (2004) levantou que as principais dificuldades encontradas pelos profissionais de saúde em relação à notificação da violência contra a criança e o adolescente são: a falta de preparo do profissional (falta de preparo para identificar e lidar com os casos de maus-tratos; tradição de uma prática que se restringe ao atendimento das patologias, sem questionar as causas; visão de que se trata de um “problema de família”, não sendo de responsabilidade de uma “instituição de saúde”; temor de estar enganado e notificar uma “suspeita infundada”) e a falta de apoio para conduzir a situação (medo em fazer a notificação e ter problemas com a justiça ou sofrer retaliações por parte do agressor; falta de suporte para realizar um atendimento mais aprofundado em função da enorme demanda; descrença no poder público e na real possibilidade de intervenção nestes casos)”.

  Visto que a notificação é um mecanismo que ajuda a combater a violência e o Enfermeiro é um dos poucos profissionais que atuam nas portas de entrada do Sistema Único de Saúde, recebendo vitimas de violência seja em unidades básicas de saúde e unidades de pronto atendimento torna-se imprescindível que este esteja preparado para lidar com essa demanda. No entanto, assim como outros profissionais, ele tem enfrentado no seu cotidiano as dificuldades já mencionadas.

2. OBJETIVO

Objetivo Geral
O objetivo do trabalho é conhecer quais os sentimentos gerados no Enfermeiro no processo de notificação da violência em crianças e adolescentes.
Objetivo Específico
Conhecer a trajetória da notificação da violência.

3. MÉTODO

Segundo Vergara (1998), “método em pesquisa significa um caminho, uma forma, uma lógica de pensamento”.

3.1 TIPO DE PESQUISA

  Diehl e Tatim (2004) definiram que os estudos qualitativos podem descrever a complexidade de um problema e classificar os processos dinâmicos vividos por grupos sociais. Tem como uma das características que os dados são coletados nos contextos em que são construídos. A análise dos dados é desenvolvida no decorrer do processo do levantamento da interação entre pesquisador e pesquisado.

  Desta forma Minayo, (2004) caracteriza o estudo das ciências sociais como consciência possível, submetidas às grandes questões da nossa época e tem seus dados limitados pela realidade do desenvolvimento social. Elas investigam seres humanos, que embora sejam muito diferentes por razões culturais, de classe, de faixa etária ou por qualquer outro motivo e que tem substrato comum que os tornam solidariamente imbricados e comprometidos.

3.2 POPULAÇÃO

     Segundo Vergara (1998) “população é um conjunto de elementos (empresas, produtos, pessoas, por exemplo), que possuem características que serão objetos de estudo”.

     A população estudada foi composta por cinco Enfermeiras que atuam nas portas de entrada do Sistema Único de Saúde de São Bernardo do Campo. O fechamento amostral se deu por saturação teórica, ocasião quando o pesquisador avalia que há certa redundância ou repetição e interrompe a inclusão de novos entrevistados, pois pouco acrescentaria nos dados coletados (FONTANELLA et al., 2008).

     Os critérios de inclusão foram: Ser Enfermeiro (a) e atuar em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA), ter tido contato com situação de notificação ou suspeita de violência contra crianças e/ou adolescentes e aceitar ser voluntário da pesquisa.

     Os critérios de exclusão: Não ser Enfermeiro (a), não atuar em UBS ou UPA; não ter tido contato com notificação de casos ou suspeita de violência contra crianças e/ou adolescentes; não aceitar ser voluntário da pesquisa; não estar presente no dia da entrevista.

3.3 CENÁRIO DE ESTUDO

     As entrevistas foram realizadas presencialmente em 1 UBS e em 2 UPAs do município de São Bernardo do Campo.São Bernardo do Campo está localizado a sudoeste da Região Metropolitana de São Paulo. Com uma área territorial de 409.508 Km²; Índice de Desenvolvimento Humano Municipal de 0,805; com 70 estabelecimentos de saúde do SUS; população residente em 2010 de 765.463 pessoas e população estimada de 2014 de 811.489 (IBGE, 2014).

   A escolha das unidades foi determinada por departamentos responsáveis da Secretaria de Saúde de São Bernardo. Por meio de informações concedidas pela Educação permanente da Secretaria de Saúde de São Bernardo de Campo, sabe-se que o município é dividido em 9 territórios. Para cada território tem uma UPA que é referência para 3 até 5 UBSs. Tendo um total de 34 UBSs e 9 UPAs. Para a escolha da UBS, foi informada a chefia de Divisão de Unidades Básicas de Saúde, uma planilha com todas as unidades do município com a quantidade de crianças até os 19 anos, inscritas no serviço até a data de 15 de julho de 2015. Com esse dado, foram selecionadas as cinco UBSs que mais tinham o número de crianças inscritas. No momento de contato com as gerentes da UBS foram excluídas quatro unidades devido a motivos de nunca terem notificado um caso de violência ou não conseguir contato com a gerente. No final, a UBS escolhida para entrevista é a quarta maior em número de crianças inscritas, atendendo um total de 6.728 crianças. Para as UPAs, a escolha foi através do contato com a gerente das UPAs do município, que indicou as unidades de referência de atendimento das cinco UBS selecionadas.

3.4 COLETA DE DADOS

     A coleta de dados foi realizada nos dias 12 a 25 de agosto de 2015 por meio de entrevista semi-estruturada, gravada e posteriormente transcrita para análise dos dados. As entrevistas foram realizadas de forma individual, tendo como questão norteadora: Como tem sido para você a notificação da violência contra crianças e adolescentes?
Questões adicionais foram utilizadas para evidenciar e esclarecer as respostas das entrevistadas.

3.5 CONSIDERAÇÕES ÉTICAS

  Em respeito aos preceitos éticos da pesquisa com seres humanos, o projeto foi submetido à Plataforma Brasil e aprovado do Comitê de Ética em pesquisa (COEP) do Complexo Hospitalar Padre Bento de Guarulhos (CHPBG), com o número 1.082.220 e com data da relatoria em 17 de junho de 2015.

  Para a realização a coleta de dados, após a aprovação do CEP, (Anexo I) a pesquisa foi apreciada pela Educação Permanente da Secretaria de Saúde de São Bernardo de Campo para permissão do campo de pesquisa e obteve aprovação do mesmo na data de 6 de julho de 2015 permitindo a entrada nas UBSs e em 11 de agosto de 2015 para a entrada nas UPAs.

  Todas as participantes assinaram o Termo De Consentimento Livre e Esclarecido (Apêndice I) da Resolução Nº 466/12 do Conselho Nacional de Saúde. (CNS, 2012), em duas vias onde uma está em posse com a pesquisadora e a outra com a entrevistada.

  Os nomes foram alterados por codinomes de personagens femininos infantis da Turma da Mônica (Mônica, Magali, Cascuda, Maria Cebolinha e Carminha Frufru) a fim de manter o anonimato.
   
   Respeitando os critérios éticos os nomes da UBS e das UPAs foram representados pelas siglas: UBS 1, UPA 1 e UPA 2.

3.6 ANÁLISE DOS DADOS

     Com relação à análise dos dados e após a transcrição na integra da entrevista gravada, adotamos os passos propostos por Minayo: ordenação, classificação e análise final de dados. Inicialmente, foi feito a organização dos dados, agrupando conforme os temas obtidos nas entrevistas. Depois, realizamos a leitura exaustiva dos dados, estabelecendo um esboço inicial das categorias de análise. Os temas mais relevantes foram destacados de acordo com o objeto de estudo, na categoria de análise (TAKEMOTO; SILVA, 2007).

     Em exemplo da análise dos dados selecionamos a frase com ênfase em comum, originando as categorias de sentimento do Enfermeiro.

FRUSTAÇÃO
“[...] eu achei um absurdo uma menina que estava sendo espancada, uma adolescente refém dentro de casa e ter ido até a delegacia e nada ser feito, continuar lá [...]
“[...] o momento era de frustração, saber que tava acontecendo um caso e que ia demorar em ter alguma medida

NOJO
“Eu senti nojo. Fiquei imaginando que podia acontecer com qualquer menina...”
“[...] eu até imaginei que poderia acontecer comigo alguma vez e senti nojo”.

4. DISCUSSÃO

     Das 5 Enfermeiras entrevistadas, todas foram mulheres, a faixa etária predominante foi de 26 a 36 anos de idade, com tempo de formação média entre 3 a 7 anos e tempo de serviço no local de 5 meses a 4 anos. Em relação à pós-graduação, tivemos como resposta; 1 Enfermeira sem pós graduação, 2 pós graduadas em urgência e emergência, 1 Enfermeira pós graduada em Saúde da Família e 1 cursando MBA em serviços de saúde.

     A discussão dos resultados encontrados nas entrevistas foi representada por meio de um mapa conceitual, relacionando os sentimentos gerados durante a trajetória da notificação da vitimização infantil.
A explicação da utilização por mapas conceituais segundo Amoretti (2001):
“Ao dispor sob a forma gráfica de um mapa conceitual os conceitos conhecidos, relacionando esta noção inicial com outras também já conhecidas, estabelecendo uma hierarquia e/ou determinando propriedades, o aluno pode organizar o seu conhecimento de maneira autônoma, retificando seu próprio raciocínio em função da construção do mapa. Este conceito de aprendizagem [...], é chamado de “aprendizagem significativa”. Na realização da aprendizagem significativa os mapas conceituais demonstraram ser uma ferramenta adequada porque possibilitam ao aluno (e ao professor também) desenvolver um processo cognitivo de aprendizagem em que ele próprio orienta a aquisição de novas informações porque elas estarão diretamente relacionadas com a estrutura de conhecimento prévio. Entendemos por “estrutura de conhecimento prévio” aquela que o indivíduo possui, no momento da aprendizagem, como produto da sua integração cultural”. (AMORETTI, 2001, p.50).





4.1 MOTIVOS DE PROCURA DO SERVIÇO

    Esta categoria representa as causas da entrada da criança nas unidades de atendimento.
     Segundo Hischheimer et al., (2011) são identificados na Classificação Internacional de Doenças (CID) todo tipo de maus-tratos, abuso e violência doméstica e por isso devem ser reconhecidos como enfermidades. Os profissionais de saúde devem reconhecer os sinais de violência contra crianças e adolescentes, pois desempenham um papel fundamental no levantamento da suspeita, confirmação do diagnóstico, tratamento das possíveis seqüelas e acompanhamento do caso.

     É muito comum que os profissionais de saúde sejam os primeiros a serem informados sobre casos de violência. O motivo da busca de atendimento é ocultado por outros problemas ou sintomas que não se configuram, isoladamente, em elementos para um diagnóstico (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001). Segundo o Ministério da Saúde (2002a) os locais onde ocorrem as violências diferem entre as crianças e os adolescentes, sendo os principais em cada grupo: “Enquanto na infância o ambiente doméstico é o principal local onde são gerados esses agravos, na adolescência, o espaço extradomiciliar tem prioridade no perfil epidemiológico” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2002a. p.19).

     Durante as entrevistas feitas com Mônica e Magali, Enfermeiras da mesma UPA, relatam a impressão que observam do perfil das vítimas de violência, evidenciada pelas seguintes frases.“Olha, eu noto assim, que adolescente está vindo bastante! Eu já peguei uns dois casos, já vi outras Enfermeiras comentarem também, muita violência na escola... Bullying sabe?, que tem tido bastante.” Magali - UPA 2

“Briga de meninada acontece isso bastante... De agressão de um jovem maior bate em um menor aí vem com hematoma e essas coisas assim [...] querendo ou não, você vai na sociedade, que sociedade a gente está vivendo?” Mônica – UPA 2
“E de criança pequena é mais com os pais, né? Agressão em casa ou então abuso por parte de padrasto, de família também, tios...” Magali - UPA 2

4.2 TRAJETÓRIA DO ATENDIMENTO

     Esta categoria descreve o caminho percorrido no protocolo de atendimento.
     Hischheimer et al., (2011), explica as quatro atribuições que a equipe e os profissionais devem ter para fazer uma notificação de violência:“Acolhimento: ouvir atentamente, não julgar a partir de seus preconceitos, refletir sobre o caso e avaliá-lo com outros profissionais da equipe. Proteção: não agir prematura ou impulsivamente, buscar informações complementares sobre o caso, pensar em formas de intervenção e encaminhamento (medidas protetivas) junto à equipe. Intervenção: cabe à equipe interprofissional decidir a melhor forma de intervenção e encaminhamento dos casos. A questão da violência deve ser vista como problema familiar e social e não apenas relacionado à vítima e ao agressor. Prevenção: ações de prevenção primária e promoção necessitam caminhar em paralelo às de atendimento às vítimas de maus-tratos, para que se consiga, no futuro, reduzir a incidência da violência contra crianças e adolescentes” (HISCHHEIMER et al., 2011, p. 87).

     Em relação aos encaminhamentos deve-se levar o caso ao Conselho Tutelar da região, quando tem uma situação de violência que apresenta lesões leves e não foi detectado risco de revitimização com o retorno para a moradia. A notificação pode ser feita mediante relatório institucional elaborado por qualquer membro da equipe interprofissional ou preenchimento da ficha de notificação de casos suspeitos ou confirmados de violências e acidentes. A criança ou adolescente deverá ser internada, para permanecer sob a proteção da instituição hospitalar, quando há uma violência com lesões graves ou o retorno para a moradia puder resultar em revitimização. Deve-se notificar a Vara da Infância e Juventude da região mediante a um relatório da equipe multiprofissional e preenchimento da ficha de notificação de casos suspeitos ou confirmados de violências e acidentes (HISCHHEIMER et al., 2011).

     Na fala de Mônica, percebe-se o tipo de atendimento dado aos casos de violência, onde não dá para saber se a vítima fica na UPA ou se volta para casa.

   “O caminho percorrido é assim: o paciente entra e classifica; classificou e identificou uma suspeita de agressão, de violência, aí é aberto uma ficha, pega todos os dados e coloca todas as informações que a notificação pede. Aí uma via fica no prontuário da criança e uma outra via vai para a vigilância epidemiológica; a criança é atendida, acionado o conselho tutelar e segue o fluxo.” Mônica - UPA 2

  A trajetória de Cascuda se diferencia pelo fato de irem atrás da Delegacia da Mulher depois de não terem uma resolução do caso ao preencher a notificação. Isso pode ser explicado pelo fato da notificação ter sido realizada em uma UBS, por não ser algo rotineiro para os profissionais, houve um envolvimento pessoal no caso e uma vontade de conseguir finalizar o caso, levando a realizar atitudes que não são comuns a profissionais que fazem sempre a notificação.

  “Na hora a gente chamou a psicóloga para discutir o caso reservado só eu, a agente comunitária, a psicóloga, a nossa gerente da unidade e a assistente social. A gente logo de cara já fez a notificação, disparou a notificação pro Conselho Tutelar e pra vigilância. Só que a notificação por si só ela não tem é... Não dispara nenhuma atitude dos conselhos, né? Então a gente decidiu ir na delegacia da mulher pra abrir um boletim de ocorrência. É... Na delegacia a gente foi bem acolhida pela assistente social, pela delegada [...] Como era uma menina foi mais fácil por causa da delegacia da mulher. Se fosse um menino, aí não sei o que a gente iria fazer, acho que só ficaria na notificação mesmo.” .Cascuda - UBS 1

4.3 PREENCHIMENTO DA FICHA DE NOTIFICAÇÃO

    Oliveira et al., (2013) em sua pesquisa mostra que existe uma falta de conhecimento por parte dos Enfermeiros em relação ao que deve ser notificado, mostrando dificuldade em avaliar os casos e de realizar as notificações, pois muitas vezes as famílias omitem informações mantendo a situação de violência em segredo.

    A fala de Cascuda da UBS 1 mostra uma falta de preparo da enfermeira sobre o que dever ser relatado na ficha de notificação, por ser uma caso não confirmado de violência, gerando uma insegurança para o profissional colocar as informações corretas.

“Tem algumas perguntas um pouco difíceis de responder por conta que quando é uma suspeita você não tem certeza do que está acontecendo.” Cascuda – UBS 1

 A fala de Maria Cebolinha da UPA 1 evidencia o fato que as dificuldades apresentadas estão no relato do caso por parte da criança ou da família.

 “Assim não houve dificuldade quanto às perguntas. Às vezes a única dificuldade é do paciente não querer falar. No caso do menininho foi super tranqüilo porque ele mesmo falou tudo. Mas já houve outros casos que, eu acho que uma vez eu peguei de uma menina e aí ela ficava muda, ela ficava calada, ela não queria falar. Só a mãe falava, então ficava difícil, porque como você vai saber? É diferente quando o paciente fala ou a mãe relata, é muito diferente.” Maria Cebolinha - UPA 1

 Em relação ao preenchimento da ficha as Enfermeiras das UPAs, relatam não ter dificuldade de preencher a ficha, apenas que pode gerar alguns sentimentos ruins como o constrangimento.

 “Ah! dificuldade não. Facilidade? acho que é rotineiro, a gente pega também muita notificação de adulto né? Muito fácil assim, muito caso de intoxicação, que é tentativa de suicídio essas coisas assim, a gente acaba tendo que fazer e acaba sendo um treino né?, e é a mesma coisa com a criança, mesma coisa o preenchimento essas coisas, tem que relatar tudo as mesmas coisas, né? Então acho que tranqüilo, não tive nenhum empecilho lá.” .Magali - UPA 2

 “Na notificação, o prontuário, o formulário pra preencher não é difícil, mas dependendo da situação, dependendo da pergunta que você vai fazer, gera um constrangimento pra criança, pro adolescente, pro adulto.” Mônica - UPA 2

 Nas falas de Carminha Frufru e Maria Cebolinha, por estarem acostumadas a terem casos de notificação de violência na unidade, não tiveram dificuldades no preenchimento da ficha. A fala de Cascuda já evidencia uma dificuldade, devido a UBS não estar acostumada a ter casos de violência.

 “Não [não existe treinamento]. A notificação a gente faz, porque sabe que quando sofre alguma violência, ou então quando você provoca alguma violência, sempre tem que notificar pra respaldar e para a vigilância sanitária também, por isso que foi feita a notificação.” Carminha Frufru - UPA 1

 “A gente tem o protocolo aqui na unidade, onde descreve tudo que a gente tem que fazer, as notificações de violência, sexual, abuso, todos os tipos de violência. E isso ajudou. Já estava preparada. Já tinha tido outros casos que eu já peguei.” .Maria Cebolinha - UPA 1

 “Não. É tudo feito na prática mesmo, quando acontece um caso. Esse ano o município lançou um protocolo de violência... Que aí tem os caminhos para todos os tipos de agressões né? Violência contra criança, adolescente, idoso, mulher, mas foi esse ano! Então em 2013 não tinha, a gente fez o que achou melhor na verdade, achou o que era o caminho melhor.” Cascuda – UBS 1

 A fala de Mônica, explica sobre como é o preenchimento da ficha de notificação e as recomendações que são dadas a equipe de enfermagem. Durante a entrevista, foi disponibilizado um modelo de ficha de notificação de violência do município (anexo II).

 “É assim, é um formulário. Então qual que é a orientação, que seja preenchido todos os campos, com o máximo de informações que você puder, mesmo que seja ‘sim, não ou ignorado’ você deve preencher e confirmar principalmente endereço e telefone da família entendeu? Todos os dados. A gente trabalha com um sistema de banco de dados do município chamado Hygia então é importante que aquele número esteja, eu sempre peço pra elas colocarem. Quando o enfermeiro entra eu falo ‘olha faça em duas vias, legível, né? Que esclareça tudo’, mas não precisa do treinamento em si, o que precisa é apresentar a ficha e falar pra ele da responsabilidade de ser preenchido corretamente.” Mônica - UPA 2

 “Então a minha percepção da notificação é um documento extremamente necessário, que o profissional deve estar super atento para preencher, levar a sério [...] antes de mandar pra vigilância eu olho pra não ir com nenhuma pendência, porque a vigilância, ela vai nos cobrar, entendeu?” Mônica - UPA 2

4.4 FINALIZAÇÃO DO CASO

     Os itens a seguir evidenciam os pontos principais que acontecem na finalização da notificação da violência contra crianças e adolescentes.

4.4.1 Não acompanham o caso

      Hischheimer et al., (2011) fala que no processo de notificação é essencial gerar um vínculo e mostrar a importância da notificação para a família e com isso o acompanhamento do caso é essencial: “O profissional de saúde deve conversar com a família, mostrando sensibilidade ao problema pelo qual ela está passando, e explicar a importância da notificação, a fim de que essa família receba ajuda adequada para enfrentar e lidar com tal situação. É fundamental que os profissionais tenham em mente que o vínculo estabelecido entre o sistema de saúde e a pessoa que acompanha o paciente precisa ser fortalecido para que o tratamento à vítima e sua família tenha continuidade” (HISCHHEIMER et al, 2011, p. 85-86).

   Oliveira et al., (2013) relata que a notificação gera um sentimento de frustração para os enfermeiros quando o Conselho Tutelar é inoperante.
   
    Em todas as entrevistas, ficou claro o descontentamento das Enfermeiras referente à atuação do Conselho Tutelar quando encaminham o caso. Em muitas falas fica evidente uma frustração, ao tentarem entrar em contato e pedir a visita a unidade e não receberem um retorno.

     
    “Nem deram retorno pra gente. Mas o Conselho realmente não teve atuação nenhuma nesse caso” Cascuda – UBS 1

   “A gente também não tem resposta deles! Quando a gente pede pra eles comparecerem a unidade, porque teve um caso eles não comparecem, eles só pedem o relatório mesmo, que mandem por e-mail o relatório e eles dão continuidade. Mas eles nunca vêem ate a unidade.” Maria Cebolinha – UPA 1

   “Ah, então isso é péssimo né? É a parte que pra mim, infelizmente, eu falo que o conselho tutelar, pra mim, não serve pra nada. Não sei em outros lugares, mas aqui... Tipo das vezes que eu solicitei ‘olha eu to com um caso assim... Dá pra vocês comparecerem aqui a unidade?’ ‘Não, é só enviar relatório por e-mail’. E a gente não tem uma devolutiva, sabe, do que aconteceu, então é difícil. Esses pacientes são aqui da região, então eu acho que eles deveriam passar e olhar, ‘olha aconteceu isso, isso e aquilo né?’ Um caso final pra história. Mas eles não vão, a gente só caminha relatório e acabou a gente não sabe mais o que aconteceu.” Maria Cebolinha – UPA 1

   “Tentei entrar em contato, eu não me lembro se era final de semana ou se era por ser seis horas da tarde, era bem no finalzinho do plantão, eu não consegui contato, eu não obtive sucesso. A única vez que eu tentei, aí depois eu acabei encaminhando por e-mail, mandei um e-mail pra gerente, pra enfermeira responsável técnica, só que eu não tive retorno. Assim, depois não me contataram, não sei se entraram em contato. Mas assim, é bem difícil. A vez que tentei ligar não consegui, não obtive sucesso mesmo do conselho tutelar.” Magali – UPA 2

4.4.3 Assistente social que acompanha o caso

     Na pesquisa de Oliveira et al., (2013) evidenciou-se que os agentes comunitários de saúde são os que detectam a violência e depois é encaminhado o caso para a assistente social para realizar a notificação. Os profissionais da unidade evitam se envolver diretamente na situação.

     As entrevistas realizadas nesse estudo demonstram um distanciamento das Enfermeiras com o caso após realizar a notificação, evidenciado pela frase:

   “E do conselho tutelar, nós não temos uma resposta rápida, ta. E quem acompanha mais de perto é o assistente social, então assim, a gente não fica muito indo atrás depois para saber.” Mônica – UPA 2

4.4.4 Não trabalham com o agressor e a vítima

      Para Algeri et al., (2006) é fundamental que as Políticas Públicas não sejam voltadas apenas para a criança e o adolescente, mas incluam a família. Ressaltam a importância do Enfermeiro na atuação com a família nos três níveis de prevenção: primário, secundário e terciário. Primário através das estratégias de prevenção promovendo ações de proteções do direito da criança e do adolescente. Secundário quando o Enfermeiro deve identificar as famílias que tenham um risco potencial para violência. Terciário quando a situação de violência já ocorreu e o Enfermeiro atua além do tratamento na prevenção que não tenha uma recorrência dessa violência.

     Durante todas as entrevistas, nenhuma Enfermeira relatou trabalho de prevenção antes de um caso e nenhuma medida para trabalhar com a vítima ou a família após ocorrer à violência, isso fica evidenciado por elas não se envolverem no assunto e após o caso ser encaminhado para a assistente social, elas não saberem o desfecho da notificação“mas quanto à agressora a gente cruza com ela aqui na unidade e tem que fingir que ta tudo bem, que a gente não sabe de nada e... A gente não está desenvolvendo nenhum trabalho com ela. Então é um pouquinho frustrante né?” Cascuda – UBS 1

   “Nós acionamos o conselho tutelar, aí tem a UBS, tem que ver o que está acontecendo né, aí a UBS faz alguma intervenção, enfim, a gente tenta trabalhar em rede, né. Mas assim, a UPA em si... Só se for um caso assim, muito especial, alguma coisa assim que a gente vai tratar com a família”. Mônica – UPA 2


4.5 SENTIMENTOS GERADOS NO PROCESSO EM GERAL

     Hischheimer et al., (2011) explica que:“Os profissionais de saúde normalmente encontram muitas dificuldades quando se deparam com situações de violência contra crianças e adolescentes. Isso ocorre, principalmente, devido à falta de preparo técnico, ao fato dessas situações envolverem a transgressão de questões morais e sociais, além do medo ou recusa em envolver-se com o que é considerado culturalmente como problema “de família”, policial e jurídico. Faz-se, portanto, necessário o treinamento para capacitar os profissionais para o adequado atendimento dessas famílias” (HISCHHEIMER et al., 2011, p. 85-86).

    Durante as entrevistas, fica evidente, que o processo da notificação, é um momento que gera vários tipos de sentimentos negativos. Evidenciados a seguir:

4.5.1 Frustração

    O Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011) conceitua frustração como:
1. “Fracasso na realização de uma atividade ou na consecução de um objetivo. 2. Em psicologia, estado ou condição de quem foi impossibilitado de satisfazer um desejo” (DICIONÁRIO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA, 2011, p. 403).

   Durante as entrevistas, em vários momentos as Enfermeiras demonstram esse sentimento ao se deparar com esse tipo de violência e dificuldades decorrentes do processo.

    “Porque eu achei um absurdo uma menina que estava sendo espancada, uma adolescente refém dentro de casa e ter ido até a delegacia e nada ser feito, continuar lá. Então o maior sentimento que a gente tinha no momento era o de frustração, saber que tava acontecendo um caso e que ia demorar em ter alguma medida” Cascuda – UBS 1


4.5.2 Medo

    Conceito de medo do Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011):
“1. Sensação de angustia causada por um risco, um perigo ou uma ameaça. 2. Temor ou receio de que acontece algo contrário ao que se deseja” (DICIONÁRIO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA, 2011, p. 543).

     Evidencia-se na pesquisa de Oliveira et al., (2013) que os enfermeiros devido a falta de sigilo que dificulta a notificação gera um medo das represálias por parte das famílias da vítima ou do próprio agressor, pois não há um suporte institucional para respaldar o caso.

O medo das represálias por parte do agressor é um sentimento muito presente nas falas de Cascuda, por ser enfermeira de UBS, ela demonstrava muita apreensão em ter que lidar com a agressora nos trabalhos do território.

“Pior sentimento que a gente teve depois é o que fazer com a pessoa que estava agredindo essa menina, porque ela continuava no nosso território, a gente sabia que ela tinha sido agressora, não podia falar que a gente sabia do caso, porque senão ela ia saber que fomos nós né? Que denunciamos e aí ela poderia ter alguma atitude ruim contra a gente aqui né? principalmente contra mim” .Cascuda - UBS 1

“Ainda bem que tem essa medida protetiva que não... A gente não é obrigada a revelar o nome, o endereço nem nada, senão eu ia ficar bem assustada de me expor e saber que aqui na unidade não tem proteção nenhuma.” Cascuda – UBS 1

4.5.3 Angústia

Conceito de angústia do Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011):
“1. Estado de ansiedade, inquietude ou sofrimento intensos. 2. Estreiteza, aperto ou limitação de espaço” (DICIONÁRIO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA, 2011, p. 58)

“Quem sofreu muito mais nessa... Nesse circuito foi realmente a agente comunitária e aí eu como enfermeira, supervisora dela, sofri junto né? De ver toda a angústia, todo sofrimento da agente comunitária e a gente ficar um pouco limitada, não ter o que fazer. A gente ta num território, vendo o sentimento da pessoa e não tem nenhum poder assim né? O que foi mais frustrante foi isso.” Cascuda – UBS 1

“Quem sofreu muito mais nessa... Nesse circuito foi realmente a agente comunitária e aí eu como enfermeira, supervisora dela, sofri junto né? De ver toda a angústia, todo sofrimento da agente comunitária e a gente ficar um pouco limitada, não ter o que fazer. A gente ta num território, vendo o sentimento da pessoa e não tem nenhum poder assim né? O que foi mais frustrante foi isso.” Cascuda – UBS 1

“E a minha percepção dos casos é angustiante, porém temos que ser imparcial, ser profissional, não podemos ter um pré julgamento, porque às vezes é uma suspeita infundada. E meu sentimento em relação ao documento é que ele é extremante importante, por isso que a gente tem essa preocupação em registrar” Mônica – UPA 2

4.5.4 Constrangimento

Conceito de constrangimento do Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011):
“1. Ato ou efeito de constranger (-se). 2. Obrigação que leva a pessoa a fazer algo, geralmente pela força” (DICIONÁRIO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA, 2011, p. 214).

“Porque o que ta lá você tem que perguntar, e às vezes é o agressor que está perto e você e tem que perguntar ‘foi agredido com o que?’ Tem que mostrar total naturalidade, porque se você demonstra pro pai ou pra quem estiver lá, aquela pergunta, ainda mais se for em nível sexual, fica constrangedor, o clima fica estranho, fica né?, sente constrangido em perguntar, mas tem que ser feito.” Mônica - UPA 2

“Eu atendi uma outra queixa, foi de uma escola, e as professoras relatavam que tinha... Que a criança estava sendo abusada sexualmente pelo pai, e eu fiz toda ficha, então na hora você fica assim ‘poxa vida’, só que ao mesmo tempo que as meninas trouxeram, você não pode julgar, alias você não tem como provar que foi, a criança tava ali todo bonitinho... E depois foi comprovado que não houve abuso.... Não houve, entendeu? Foi feito todo o trâmite, foi pro médico, o médico encaminhou, aí o pai entrou com uma ação contra a escola, porque o pai era sozinho, então gerou o que? Um preconceito! Então quando a gente atende a gente tem que... Não adianta, a gente tem que ser imparcial; ouvir, relatar o máximo, registrar o máximo de informações conforme eles estão passando e o que você observa também, entendeu? Porque senão essa suspeita é negada né? não foi confirmada e você fica ali com aquela cara “poxa eu tava julgando ali, achando que era tal e não era.” Mônica - UPA

4.5.5 Nojo

    Conceito de nojo do Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011):
“Repulsa por algo. Asco. 2. Aquilo que causa esse sentimento”. (DICIONÁRIO DIDÁTICO DE LÍNGUA PORTUGUESA, 2011, p. 583).

    “Eu senti nojo. Fiquei imaginando que podia acontecer com qualquer menina com uma idade de 13 a 14 anos, eu até imaginei que poderia acontecer comigo alguma vez e senti nojo, imaginando acontecer alguma coisa assim comigo... Na hora que eu tava notificando.” Carminha Frufru – UPA 1

    “Ah... Meu sentimento é de nojo. Porque assim, sei lá... Se de menina já é, imagina de menino, né? Senti nojo e senti muita dó também, porque assim, cinco anos, do jeito que o menininho falava, tipo era muito inocente né? ‘aí ele colocou o piupiu’.... falando dessa forma. Um garoto muito inocente assim sabe? Fiquei com muita dó dele e nojo pela situação, né?” Maria Cebolinha – UPA 1

4.5.6 Tristeza

     O Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011) define tristeza como um “sentimento ou estado de melancolia ou ausência de ânimo”.

    “O sentimento é triste, mas sei lá, não tem muito o que fazer!” Maria Cebolinha – UPA 1

   “Pra mim é assim... Ah é triste! Ver como tem caminhado a educação, a parte de cuidado da criança, acho que invertemos valores e tudo né?” Magali – UPA 2

   “É muito triste ver uma criança assim, porque vai gerar uma conseqüência na vida dela daqui pra frente, depois do que aconteceu né? [...] Tem que ser muito bem tratado, as famílias não tem estrutura pra abordar também né? com a criança depois que ocorre o fato.” Magali - UPA 2

4.5.7 Espanto

     A definição de espanto pelo Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011) é “terror, susto ou assombro”.

    “Eu fiquei meio assustada porque ela chegou falando super tranqüila... É bem calma, que ela tinha sido abusada pelo padrasto dela, ela tinha 13 anos, tanto que ela veio com um amigo da mãe, relatando que ele passou a mão nela, que ele fez carícias, que ele ameaçou tanto ela quanto a mãe! Só que em nenhum momento ela demonstrou reação de desespero, ela não chorou, ela não fez nada! Ela contava assim... super calma, não sei se ela estava em estado de choque, ou se ela já tinha sofrido outros abusos!” Carminha Frufru – UPA 1

   “... O jeito da menina eu fiquei surpresa, pela reação dela, ela contando super de boa como to contando pra você agora, super de boa. Não esboçava nada, isso que eu achei estranho, achei esquisito” Carminha Frufru – UPA 1

   “Então a reação dela que eu achei estranha. A reação que ela teve, não sei se era choque, se ela ainda estava em estado de choque, ou se pra ela era uma coisa normal que aconteceu, porque ela não esboçou nenhuma reação, nem de medo, nem de chorar, nem de desespero... Nada! Ela tava contando normal, como se fosse um fato que aconteceu, sabe assim... Normal, como que acontece.” Carminha Frufru – UPA 1

    “A mãe dela também ficou sabendo, mas em nenhum momento a mãe dela veio aqui, falou que não podia acompanhar a filha porque estava trabalhando muito, o que achei estranho porque se fosse minha filha eu teria vindo atrás né” Carminha Frufru – UPA 1


4.6 DESVENTURAS DA NOTIFICAÇÃO: A EVIDÊNCIA DO FENÔMENO ESTUDADO

     Segundo o Dicionário Didático de Língua Portuguesa (2011) desventura significa “má sorte ou infelicidade”. Dicio - Dicionário Online de Português (2015) coloca como “Infortúnio; falta de sorte; desprovido de ventura; em que há desgraça. Má sorte; ausência de felicidade; expressão de tristeza. Desgraça; situação angustiante, prejudicial”. 

     Na discussão das análises, o termo Desventuras aparece como um fenômeno principal gerando sensações/ sentimentos diversos envoltos na trajetória do processo da notificação e resolução humanístico que comprometem profissionais, família, comunidade, sem distinção de classe social, raça, gênero e religião.

     
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

     Algeri et al.(2006) discorre que além do compromisso legal, moral, enquanto cidadão/ profissional é necessário um conhecimento científico sobre a problemática da violência, todavia isso procede a tarefa de o mesmo ter que se confrontar e lidar com seus próprios sentimentos e emoções, que trazem à tona conflitos ético e morais.

     A Trajetória iniciada na procura do serviço deixa lacunas no processo efetivo, profissional e resolutivo do atendimento infantil e da família, relatado em vários momentos, motivos estes, de angústias e sensações de ineficiência deixando a notificação como apenas mais uma atribuição comum do setor.

     A Enfermagem precisa ter um conhecimento acessório no atendimento dos casos de vitimização Infantil, para também detalhar a coleta dos dados e especificação do impresso protocolado pelo SINAN (Sistema de Informação de Agravos de Notificação) e desta forma humanizar o atendimento e melhor acolher.

     A necessidade de intervenção por parte da equipe multiprofissional é primordial, pensando que nosso futuro depende destas crianças e adolescentes para transformar a convivência social amena e solidária na sociedade.


6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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